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Revistas acadêmicas

As metrópoles do sul global são constituintes da crise que se instaurou com a chegada do Antropoceno. As periferias e favelas dessas megacidades apontam para uma nova possibilidade de pensar a geografia global. O presente artigo articula conceitos de território, poder e informalidade a fim de evidenciar um conflito latente de racionalidades que seria capaz de rever os mecanismos de planejamento e estudos urbanos. Este trabalho opta por um percurso exploratório, onde as incertezas são valorizadas como processo de reflexão. Ele apresenta pontos e conceitos que se entrecruzam e se misturam num emaranhado à luz da ideia de um urbanismo do Sul e das experiências propostas por coletivos e organizações oriundas do Conjunto de Favelas da Maré, no Rio de Janeiro.

 

VIEIRA, Gilberto.; FIRMINO, Rodrigo; CARNASCIALI, Rafael. Favela-metrópole: a crise do urbanismo e a centralidade das periferias. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v. 27, n. 1, 2025.

 

Este artigo explora o fenômeno emergente do ativismo de dados, aqui definido como o uso crítico e estratégico de dados para amplificar demandas sociais e influenciar políticas urbanas. Analisando a agenda política do maior evento da América Latina dedicado ao tema, identificamos presenças e ausências que revelam lacunas na governança contemporânea das cidades. Em seguida, investigamos o trabalho de uma organização social fundada por jovens no Conjunto de Favelas da Maré (Rio de Janeiro), que vê na Geração Cidadã de Dados (GCD) uma oportunidade de reposicionar seus territórios e suas reivindicações. A análise sugere que, apesar das novas configurações de colonialidade ancoradas na dataficação da vida e da morte, coletivos periféricos estão moldando um novo paradigma de ativismo urbano. A pesquisa suscita reflexões como: de que forma sujeitos geográfica e subjetivamente localizados podem reposicionar territórios marginalizados por meio de ações tecnopolíticas? Que ferramentas eles estão dispostos a inventar ou adaptar para assegurar comunidades com plenos direitos?

 

VIEIRA, Gilberto. Da agenda tecnopolítica dos dados na América Latina à geração cidadã de dados nas favelas. Textos para Discussão LabCit/GEDRI, v. 6, n. 2, p. 70–90, 2025.

 

Em “Território Usado e Humanismo Concreto: o Mercado Socialmente Necessário”, Ana Clara Torres Ribeiro (2005) exalta a centralidade do território na busca por novos horizontes de resistência. Na verdade, ao lado de Milton Santos, Ana Clara já nos alertava, pelo menos desde os anos 1980, para a importância de compreendermos a força do “território usado” como campo de construção de utopias sob a ideia de ação política. Em um país marcado pela injustiça e desigualdade social, não é novidade que o novo coronavírus aumente exponencialmente os desafios para famílias que vivem em territórios populares como favelas, aldeias indígenas, quilombos e assentamentos.

 

FIRMINO, Rodrigo.; PIO, Débora.; VIEIRA, Gilberto. Revolução periférica dos dados em tempos de pandemia global. Revista de Morfologia Urbana, v. 8, n. 1, p. e00156, 2020.

 

Capítulos de livros

O capítulo discute a tecnopolítica dos dados no contexto do Antropoceno, argumentando que a intensificação da dataficação da vida urbana aprofunda desigualdades históricas e produz novas formas de governança excludente. A partir de uma perspectiva crítica, os autores articulam debates sobre colonialismo digital, justiça climática e governança de dados, destacando o papel das favelas como territórios centrais na produção de saberes e práticas alternativas. Com base em pesquisa etnográfica e na experiência do data_labe e do projeto Cocôzap, o texto propõe a Geração Cidadã de Dados como estratégia tecnopolítica capaz de reconfigurar relações entre Estado, território e conhecimento no enfrentamento das crises socioambientais contemporâneas.

 

VIEIRA, Gilberto; MACHADO, Bruno Amadei. A tecnopolítica dos dados e a centralidade das favelas no Antropoceno. In: LEMES, Manoel et al (Org.). Cenários alternativos de planejamento territorial para o século 21. 1. ed. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2025, p. 412–424.

 

Este texto parte de uma reflexão sobre como habitar a catástrofe contemporânea, marcada pela crise ambiental e pelas novas formas de colonialismo digital. Inspirado em autores como Davi Kopenawa, Shoshana Zuboff e Deivison Faustino, evoco o colonialismo de dados como uma atualização das lógicas imperiais de extração e controle, nas quais as grandes corporações tecnológicas concentram poder e produzem subjetividades. A partir dessa crítica, apresento o trabalho do data_labe, organização fundada na Maré que pratica a Geração Cidadã de Dados (GCD) como estratégia de enfrentamento à colonialidade e de reinvenção da vida urbana. O texto propõe compreender o ativismo de dados periférico como prática ontopolítica capaz de reconfigurar categorias oficiais e epistemologias coloniais, sugerindo que habitar a catástrofe implica criar outras formas de conhecer e adiar o fim do mundo.

 

VIEIRA, Gilberto. Ativismo de dados nas periferias urbanas: como(re)imaginar a cidade na era da colonialidade dos dados. In: Barbara Necyk, Bianca Martins, Ricardo Artur. (Org.). Desconversas: design e educação. 1ed.Rio de Janeiro: PPDESDI, 2025, v. 1, p. 14-29.

 

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Este capítulo busca contribuir para a revisão crítica do conceito de Geração Cidadã de Dados no Brasil e o fortalecimento de um campo de estudo e ativismo em ascensão no país. Num primeiro momento, apresentamos uma análise bibliométrica inédita, realizada com o objetivo de identificar artigos científicos que utilizam o termo Geração Cidadã de Dados (Citizen-Generated Data). A intenção disto é compreender diferenças nos usos do termo em diferentes campos e sua capilaridade nas bases de artigos científicos. Em seguida, elaboramos uma retrospectiva do uso do termo no país e concluímos propondo aproximações e distanciamentos conceituais entre os usos em português e inglês, revelando um importante campo de estudo, interdisciplinar e diverso, que começa a ser disputado na produção científica do país e que encaminha para um novo ativismo nas favelas e periferias brasileiras.

 

VIEIRA, Gilberto.; MOTA, Polinho.; FIRMINO, Rodrigo. Geração Cidadã de Dados: uma cartografia situada do conceito. Em: KRAUS, Lalita.; DONADIO, Tomás. Tecnopolíticas Urbanas: (in)justiça social na cidade datificada. Rio de Janeiro: Garamond, 2025. p. 175–196.

 

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Este capítulo revela um aspecto particular do surgimento de plataformas urbanas digitais: a sobreposição de ferramentas digitais, ativismo digital de dados e assimetrias políticas na reimaginação e reconstrução das cidades. Em todo o mundo, o trabalho de hackers cívicos, hackathons e outras formas de ativismo de dados levou a uma variedade de arranjos sociotécnicos que podem ser considerados plataformas urbanas e vão de portais municipais de dados abertos a aplicativos comerciais e não comerciais para atividades urbanas (Luque-Ayala & Marvin, 2020). Essas plataformas intervêm em várias dimensões urbanas, como transporte, segurança pública, infraestrutura e gestão de resíduos. Argumentamos que o ativismo de dados e as intervenções digitais pré-configuram plataformas urbanas, tanto materialmente quanto politicamente. Embora nem todas as plataformas digitais tenham raízes na tecnologia cívica, sugerimos que, dentro das práticas de ativismo digital e de dados nas cidades, há sempre uma variedade de plataformas em construção.

 

LUQUE-AYALA, Andrés. et al. Plataformas urbanas: Hackers cívicos e ativismo digital nas cidades brasileiras. Em: KRAUS, Lalita. et al. Cidades inteligentes e contradições urbanas: reflexões para a garantia do direito à cidade. Rio de Janeiro: Garamond, 2023. p. 209–226.

 

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This chapter unpacks a particular aspect of the emerging urban digital platform: the coming together of digital tools, digital/data activism and political asymmetries in both re-imagining and re-making the city’s environment. Worldwide, the work of civic hackers, hackathons and other forms of data activism has eventually led to a range of city platforms—from municipal open data platforms to commercial and non-commercial applications (Luque-Ayala and Marvin, 2020). These platforms intervene in diverse urban issues, such as transport, public safety, citizen engagement and waste management. We argue that data activism and digital interventions prefigure urban platforms both materially and in terms of their political orientation. While not all digital platforms have roots in civic tech, we suggest that within practices of digital and data activism in cities there are always a range of platforms in the making.

 

LUQUE-AYALA, Andrés. et al. Platforms in the making: Hacking the urban environment in Brazilian cities. Em: HODSON, M. et al. (org.). Urban Platforms and the Future City. London: Routledge, 2020. v. 1, p. 292.

 

Mídias

Entendemos a geração cidadã de dados (GCD) como o conjunto de ações que possibilitam aos cidadãos, gerar, recolher e utilizar dados para benefícios de suas comunidades ou coletivos. As sugestões a seguir são baseadas na experiência do trabalho do data_labe, como também a partir da escuta de outras iniciativas que geram e coletam dados de forma participativa no Brasil. Por isso, não consideramos estas recomendações como uma fórmula única ou um modelo que não possa ser adaptado. Assim sendo, apresentamos sete passos que ajudam a basear todos os trabalhos de GCD no data_labe. Eles vêm acompanhados de perguntas importantes que se adequam a qualquer processo, independentemente da temática ou problema escolhido para o projeto.

 

 

MOTA, Polinho.; VIEIRA, Gilberto. Geração Cidadã de Dados: Saiba como desenvolver seu projeto de produção de dados com participação social
a partir da metodologia utilizada pelo data_labe. Em: DATA_LABE. 2023. Disponível em: https://datalabe.org/geracao-cidada-de-dados/

 

Quando as estatísticas não te representam, o que fazer? Produzi-las, por que não? As questões de representatividade no Brasil e no mundo se apresentam em muitos cenários e os números deveriam ser taxativos para conhecermos e reconhecermos como um velho problema. Mas nem sempre eles estão disponíveis para isso. A novidade é que há pessoas comprometidas com a realidade e a ciência, produzindo bases de dados para contar sobre desigualdades e vivências, a partir das periferias, às margens dos órgãos ditos oficiais.

 

SACCO, C. et al. Geração cidadã de dados: quando a própria população busca soluções. Em: ECOA UOL. 14 out. 2023.

 

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