Tese de doutorado, 2025
A centralidade dos dados na vida urbana contemporânea tem reconfigurado modos de governança da vida e da morte, assim como relações de poder, ampliando desigualdades históricas e tensionando o direito à cidade. No contexto brasileiro, marcado por profundas assimetrias sociais e pela estigmatização das populações que vivem em favelas e periferias, emergem iniciativas em que coletivos e organizações sociais se apropriam criticamente de tecnologias e metodologias de produção de dados para intervir nas narrativas e nas políticas que afetam seus territórios. Esta tese investiga como o uso de ferramentas mobilizadoras de dados por grupos periféricos influencia um movimento de reposicionamento tecnopolítico dessas populações, legitimando-as como produtoras de conhecimento técnico e filosófico. Ancorada em referenciais críticos sobre urbanismo, tecnologia, política e colonialidade, a pesquisa combina abordagem qualitativa e etnográfica, com observação participante no campo do ativismo de dados brasileiro, assim como em eventos estratégicos sobre dados e periferias realizados entre 2022 e 2024, além de análise documental de projetos e políticas. Os resultados indicam que a prática intitulada “Geração Cidadã de Dados”, quando enraizada em redes comunitárias e articulada a repertórios políticos próprios, potencializa disputas narrativas, amplia capacidades de incidência política e fomenta novas formas de participação no debate urbano. Contudo, as práticas analisadas enfrentam barreiras que envolvem infraestrutura, acesso a recursos técnicos e financeiros, deslegitimação científica e riscos de captura por plataformas corporativas de tecnologia. A análise revela que tais práticas operam como cosmotécnicas e cosmopolíticas, ativando modos de vida e produção de conhecimento que desafiam visões hegemônicas sobre a favela e evidenciam um urbanismo situado, capaz de inspirar novos arranjos de diálogo entre Estado, sociedade e corporações. Conclui-se que a Geração Cidadã de Dados configura um repertório emergente de ação tecnopolítica e epistêmica nas periferias, com potencial para reposicionar esses territórios no centro das discussões sobre governança urbana no caos do Antropoceno. A pesquisa contribui, assim, para os estudos urbanos e para o campo da justiça de dados ao propor categorias analíticas e interpretações críticas que podem ser aplicadas a outros contextos do Sul Global, ampliando a compreensão sobre a interseção entre dados, território e ativismo.